domingo, 9 de setembro de 2007

A pequena sabedoria de não alimentar abutres


Daudy contou esta história:


Nyani, o macaco, odiava os abutres.
Mas Tico, o primo de sua esposa, era uma criatura dotada de pequeníssima inteligência. Tico meramente dizia que odiava os abutres; porem ficava fascinado pelos seus agudos bicos, seus pescoços sem penas, pelo modo como suas caudas balançavam quando andavam, e pela curva de suas perigosas garras.


Um dia, um abutre pousou no chão, perto da árvore da família Tico. Seus olhos beberam cada movimento da ave de rapina. Tico olhou de um lado para o outro. Ninguém estava olhando, e Tico jogou comida para o abutre. Então, por causa da voz intima que dentro dele falava em altos brados contra os abutres, Tico gritou com voz irada. E com muitos gestos, ordenou que o abutre fosse embora.


No dia seguinte, vieram dois abutres. Seus olhos ficaram vermelhos quando os observou, espiando por um buraco na arvore. Sua boca ficou seca. Furtivamente olhou para verificar se era observado, mas os habitantes do mato não estavam olhando em sua direção. Novamente jogou comida para os perversos abutres, os quais, aproximando-se, crocitavam de um modo que não era nada agradável para os ouvidos.


Logo outros abutres se aproximavam cada vez mais, pois Tico continuava a alimenta-los. Então,l em voz que podia ser ouvida mesmo nos espinheiros mais distantes, ele proferia ameaças de jogar pedras, e que teriam sido horríveis se antes não tivesse jogado comida. Os abutres esvoaçavam, mas voltavam e não se afastavam do terreno.
Clara, a girafa, de seu ponto vantajoso acima dos espinheiros, viu tudo isso e sacudiu a cabeça tristemente, pois sabia que aqueles que alimentavam os abutres procuravam dificuldades.
Passou-se uma semana.
Os abutres já não se mantinham à distancia. Chegavam até as raízes da árvore, a comer de modo horrível o alimento que o pequeno macaco lhes lançava furtivamente. Tico os observava avidamente, embora o receio lhe fizesse encolher o estômago.


No calor do meio dia, no dia seguinte, os abutres, cada vez mais ousados, adejavam por cima da arvore, e embora Tico ralhasse com eles em aparente ira, crocitavam e esvoaçavam desajeitadamente para finalmente virem pousar na arvore, a disputar selvagemente a comida que Tico lhes oferecia.


Bem acima voavam em círculos outros abutres. Durante todo o tempo iam chegando mais e mais abutres. Continuavam pousando e se amontoando cada vez mais perto de Tico.
Realmente assustado, Tico batia com um pau nodoso em redor de si, mas sem efeito algum. Os abutres que ele havia encorajado estavam rapidamente a domina-lo. Cada vez chegavam mais abutres.


Finalmente lançaram-se contra ele com suas horríveis cabeças e com seus bicos despedaçadores, e ficaram a bicar ferozmente em seus olhos, seu corpo, seus membros. Os gritos do macaco eram abafados pelo crocitar de dezenas de abutres.


Ao pôr do sol, Nyani voltou de uma viagem. Ficou horrorizado ao encontrar completamente limpos os ossos do primo de sua esposa, o qual havia sido comido a bicadas pelos horrendos pássaros.
“Puxa!”, disse um dos que estavam a ouvir Daudi, ao mesmo tempo em que estremecia. Esta noite terei muitos sonhos ".
“Outro que estava ouvindo tirou sarro, segurando a banqueta e que estava assentado. “posso ver aquelas horríveis cabeças com seus pescoços sem penas a beliscar-me”.
Daudi sorriu, e então tornou-se muito sério.


“Entre vocês há alguns que já me contaram que suas dificuldades são pensamentos que não são puros. A lição de meu provérbio é o seguinte: “Alimentem esses pensamentos por meio daquilo que vêem, que lêem, que ouvem e que falam, e acabarão adejando por cima das vidas de vocês até domina-las”.


“Mas deixem-nos morrer à mingua, e ir-se-ão embora. Alimentem-nos, e voltarão em grupos cada vez mais numerosos”.
“A muitos já aconteceu que os ossos de suas almas foram bicados por tão perversos bicos”.

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