sábado, 27 de dezembro de 2008

O DILEMA DA PROATIVIDADE

A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda. Em vindo a soberba, sobrevém a desonra, mas com os humildes está a sabedoria. Provérbios 16:18 e 11:2.
O Criador é a causa não causada que tudo causa sem ter nenhuma causa que lhe tenha causado. A criatura é uma causa causada que nunca poderá ser a causa que tudo causa. O Criador pode descer até o nível da criatura sem perder a sua essência, mas a criatura nunca poderá alcançar o patamar do Criador. Javé pode tomar a dimensão do homem, porém o ser humano encontra-se impossibilitado de se tornar Deus.

Deus é o Criador. Ele criou os anjos entes imateriais e em seguida a realidade física. O homem é um ser espiritual psicossomático dirigindo-se pela via psicossocial. Na criação há um fato incorpóreo que transcende à mecânica. Mesmo a física quântica que tenta explicar a energia atômica não consegue elucidar a realidade desta vida espiritual. Lúcifer é anjo e seu pecado é ingênito, isto é, incitado e gerado por ele mesmo ao se confrontar com o Criador. Como criatura, ele não poderia ser o Criador, mas sendo uma criatura dotada de cobiça poderia desejar ser Aquele que ele nunca poderá ser. Ao se confrontar com o Criador a criatura Lúcifer desejou tornar-se Criador, originando assim uma concorrência que acabou produzindo um conflito complicado. A conspiração espiritual luciferiana teve ainda influência no mundo atômico e os seres humanos acabaram sendo atingidos pelos efeitos da rebeldia dos poderes metafísicos.

Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. 1João 1:5b. Lúcifer é um anjo de luz que se tornou o príncipe do império das trevas. Elohim o criou cheio de luz, mas como uma criatura finita. Quando ele caiu, em razão de seu inconformismo, tornou-se a causa causada, causadora do império das trevas que obscurece a compreensão humana.
No Jardim do Éden, o primeiro casal foi confrontado com a possibilidade impossível de ser como Deus, sendo tentado nos seus desejos teomaníacos. Como ensina a filosofia da cabala, o homem é o que deseja, por isso, em vez da criatura ser apenas um reativo receptor da luz, ela passa a ser um proativo desejando ser a luz. Ora se o Criador é luz, a criatura, do mesmo modo, pode desejar ser a luz. Em termos práticos, o objetivo da tentação é transformar a criatura de uma entidade reativa em uma entidade proativa. Aquele que é o efeito pode desejar ser a causa não causada. O ser criado quer ser o Criador. Aquele que é controlado pretende se tornar controlador e o que recebe, anseia ser aquele que compartilha. Este é o objetivo final da vida proativa do receptor humano, invadido pela inveja do pecado.

A realidade da conspiração tem como propósito eliminar o Pão da Vergonha. Esta é uma expressão cabalística que demonstra todas as emoções negativas ocorridas por um sucesso imerecido. Todo aquele que, abandonado pela sorte, se vê obrigado a aceitar a caridade, está comendo o Pão da Vergonha. Mas, o que se percebe nesse jogo é a arrogância da criatura contra o repouso da graça. É o grito de independência ou sorte!

O apóstolo Paulo teve o discernimento do Espírito quando mostrou com clareza o quadro tenebroso da estratégia maligna: Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. 2 Coríntios 4:3-4.
O ofuscamento espiritual é produto do deslumbramento do ego. A venda do Príncipe das Trevas impede que o sujeito enxergue além do seu umbigo. E assim, a miopia narcisista acaba afogando o dito-cujo num poço de lama na beira da estrada. A proatividade em fazer por merecer e de ser a causa da sua própria satisfação é a semente inchada do orgulho, que surge pela comparação e se manifesta numa inveja explosiva e contrária ao Criador. Essa inveja desencadeia uma competição de onipotência aguda, gerada no íntimo da criatura inquieta ao buscar a sua independência de Deus.

Frederico Nietzsche dizia em um dos diálogos do personagem apelidado de o Homem Feiíssimo, o seguinte: - como poderei admitir a existência de Deus, se eu mesmo não for Deus também? Aqui reside o dilema da resistência proativa. O pecado é o produto da inveja que não suporta ser menos do que Aquele que é mais, maior e melhor.
A proatividade, neste caso, representa a insuportabilidade das diferenças e desigualdades, enquanto a proposta de igualdade do iluminismo testemunha de uma padronização invejosa. "Espelho, espelho meu! Quem é mais bonito do que eu?"
Se eu não sou aquele que gostaria de ser, a minha admiração se transforma numa crítica ridícula com o intuito de depreciar o outro, a fim de, quem sabe, promover-me à pose invejada. A pretensa igualdade dos desiguais é o lamento dos destroçados. Quem advoga a demolição do pináculo é sempre o fundo do vale.

A lixeira se queixa por não viver no luxo e aposta em desbancar quem ali vive. Ninguém aspira a ser a vala do esgoto, já que o partilhar igualitário é o tema de quem só ambiciona ser o cume da montanha. Destarte, a equidade torna-se - mutirão tapa buraco.
A pauta na agenda da alma rebelde é o jogo com o mais elevado. O ego foi pervertido pelo desejo de competir. O que se define como o estímulo do pecado é a energia usada para rivalizar-se com alguém em virtude das suas diferenças. Os desafios são mais intensos do que a vitória, os riscos mais empolgantes do que a certeza da conquista, pois a proatividade dá o sabor de que o sujeito em ação é o ator principal da história. O pecado propõe tornar a criatura em protagonista do drama existencial. Como atleta olímpica ela é treinada com o objetivo de merecer a conquista e erradicar, deste modo, o Pão da Vergonha. A graça é o maior insulto ao mérito. Jesus Cristo foi rejeitado como o Pão Vil de um cardápio indigesto. É triste ver a humanidade erguendo escadas para se projetar no cenário do alpinismo social.

Para os israelitas que saíram do Egito, o Maná foi considerado como um pão bolorento e desprezível. Seria a graça barata? E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil. Números 21:5.
A graça ofende a auto-estima. Ganhar sem labutar reduz a aquisição a alguma coisa detestável e dispensável. A esmola é um sinal de desdouro pessoal. Viver da caridade é um ultraje inconcebível para os nobres e esnobes deste planeta infestado de orgulho. O Maná tornou-se um prato enjoativo para os que se dizem donos do mundo.

O pão nosso de cada dia nos dá hoje é uma afronta ao merecimento. Temos que nos empenhar sempre para fazer jus às conquistas que marcham pela frente. Dizem: a herança recebida desestimula o espírito empreendedor. Ganhar de graça é algo sem graça para o soberbo que exige o reconhecimento dos seus esforços. Nada pode ser mais sem valor do que um prêmio que não veio molhado de suor e envolto em dedicação.
Quarenta anos de Maná no deserto foi um tempo longo demais para o fastio de uma geração que requeria um menu sofisticado e oneroso. Ser mendigo e receber a esmola da graça é um insulto insuportável para toda essa gente metida que prefere pagar caro pelo seu ingresso no espetáculo da plenitude da vida.

Faço parênteses: o trabalho suarento é parte da penalidade do pecado. Por causa da rebeldia adâmica todos têm que transpirar para conseguir o pão diário. Todavia, o Maná aponta para Cristo, o alimento que sacia a fome íntima de significado, dando-nos a identidade eterna de filhos de Aba. Este Pão é absolutamente gratuito. Neste mundo os afazeres são sempre afanosos, mas a carta de alforria dos escravos do pecado é de graça. Embora o progresso da vida cristã demande diligência, o título da salvação é dádiva divina. A evolução exige ânimo, se bem que apoiado pela graça. Muitos não entendem que o evangelho é uma doação de cunho familiar. Jesus veio revelar que Deus é o Pai que tem prazer em presentear graciosamente a todos os seus filhos enlameados. Veja essa pegadinha bem humorada no livro de Ester: E, entrando Hamã, o rei lhe disse: Que se fará ao homem de cuja honra o rei se agrada? Então, Hamã disse no seu coração: De quem se agradará o rei para lhe fazer honra mais do que a mim? Ester 6:6. Quanta presunção!

Hamã, que tipologicamente revela a carne, achava que ninguém deveria ser mais importante no reinado de Assuero do que ele mesmo. Assim, descreveu uma cerimônia pomposa e cheia de detalhes para a sua condecoração. Mas veja o desfecho: Então, disse o rei a Hamã: Apressa-te, toma as vestes e o cavalo, como disseste, e faze assim para com o judeu Mordecai, que está assentado à porta do rei; e não omitas coisa nenhuma de tudo quanto disseste. Ester 6:10.
Hamã caiu do cavalo. Eu também. O meu pecado me coloca numa posição de destaque. Eu sou sempre proativo em meu favor. Gosto de me estimar diante dos outros, ainda que esta atitude passe despercebida pela maioria, nunca passará desatenta a Aba. Mas esta palavra em aramaico é a denominação de Pai, revelada no evangelho da graça. Aba não é um empresário assalariando empregados suados. Do mesmo modo não é um técnico exigindo desempenho dos seus atletas para conquistar o torneio principal da temporada, a qualquer custo. Aliás, ninguém monta no cavalo porque merece.

Tudo o que acontece na vida cristã é pela graça, até mesmo o esforço. O galardão também é obra da graça. A proatividade dos filhos é patrocinada e promovida pelo Pai. A graça é que nos faz agir de acordo com os protocolos do Reino de Deus.
Na casa de Aba não há nenhum carrasco ou sargentão mantendo todos sob a pressão do medo, nem gerente insistindo pela coação do resultado. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. Romanos 8:15.
A fé cristã é uma celebração em família e não a festa glamorosa do Oscar premiando a gente ilustre do cinema. O evangelho não é uma recompensa pelas conquistas, mas o usufruto exultante do amor incondicional do Pai. Ser uma pessoa proativa no Reino de Deus não significa ser um executivo intransigente exigindo desempenho. Crescer na graça é crescer graciosamente em Cristo à maneira Dele, por meio Dele e para Ele. Glória, pois a Ele, eternamente. Amém.
PR Glenio Paranaguá

Um comentário:

Vítor Carvalho Ferolla disse...

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